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Monitoramento de poços do cristalino cearense

Pesquisadores da UFC estão monitorando poços do cristalino cearense

 

Da Agência Funcap
Por Sílvio Mauro

Os reservatórios no cristalino se formam pela passagem da água pelas fendas das rochas

Além de receber chuvas de forma irregular, o território do Ceará é composto, em boa parte, por solo rochoso, conhecido como cristalino, o que dificulta a infiltração da água. A pouca quantidade de água subterrânea armazenada ainda apresenta alto índice de salinidade, o que inviabiliza, muitas vezes, o consumo por parte da população. Essa combinação de fatores tem sido um dos principais componentes da histórica escassez de recursos hídricos do estado, que até hoje não foi solucionada.

Para tentar entender melhor o processo de formação dessa água salobra e ajudar a descobrir formas de diminuir o nível da salinidade e tornar esse manancial aproveitável para consumo humano, um grupo de pesquisadores do Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará (UFC) está fazendo o acompanhamento com amostragens de águas de poços do estado. O projeto “Estudo da recarga e da variação temporal da qualidade das águas subterrâneas armazenadas no cristalino do Ceará” foi proposto para observar sistematicamente as alterações de salinidade e identificar os processos físico-químicos que ocorrem nas águas subterrâneas no cristalino.

De acordo com a professora Marlúcia Santiago, responsável pelo estudo, um dos principais objetivos é melhorar o aproveitamento dessa água salobra, já que boa parte dela acaba não sendo utilizada nem durante o período de estiagem. O processo de dessalinização usado atualmente, caro e complexo, faz com que muitas comunidades dependam de carros-pipa – mesmo tendo poços e reservatórios próximos – por falta de um dessalinizador em funcionamento.

A pesquisa, com duração prevista de dois anos, está acompanhando as variações em seis poços na região do município de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. Três são monitorados telemetricamente (através de coleta automática de dados e o envio em tempo real através de satélite) com transmissão sistemática de três parâmetros : nível de água, vazão e condutividade elétrica da água bombeada. Outros três poços são amostrados a cada 30 dias.  Os pesquisadores receberam apoio da Funcap para implementar uma das principais tarefas do projeto, o acompanhamento em tempo real dos dados coletados nos poços. Através de um edital destinado à infra-estrutura laboratorial, a equipe conseguiu obter o equipamento de telemetria.

Marlúcia explica que, apesar do trabalho ser feito apenas em seis reservatórios, os dados podem servir como referência para toda a região do cristalino, que abrange vários estados do Nordeste. “As rochas são diferentes, mas os principais processos químicos e físicos são os mesmos”, observa ela.

Uma das informações mais importantes já obtidas com o projeto é que o nível de salinidade dos poços não é constante durante o ano. Há grande variação, de acordo com o período de chuvas ou de seca. Além disso, como em cada poço o processo de passagem de água depende do tipo de fenda (vertical ou horizontal, isolada ou em comunicação com outras, por exemplo), pode acontecer de, mesmo em reservatórios vizinhos, a salinidade da água ser muito diferente.

A professora acredita que, de posse dos dados levantados, será possível, no futuro, o aproveitamento melhor das reservas de água do cristalino. Um bom sistema poderia, por exemplo, extrair água de um poço induzindo recarga  com as chuvas, reduzindo substancialmente seu nível de salinidade pela renovação da água. Outro benefício obtido com o estudo seria o dimensionamento do processo de dessalinização, já que seria possível conhecer o nível dos sais em cada reservatório e em cada período.

De acordo com a equipe, o cristalino compõe aproximadamente 75% do território cearense, o que dá idéia da importância da análise desse ambiente. Está sendo preparada uma publicação dos primeiros resultados do estudo, que continua sendo feito e ainda oferece muito a ser descoberto. Marlúcia informa que, atualmente, um dos focos do projeto é analisar o processo de dissolução dos minerais na água.
 

Solo cristalino x solo sedimentar

Segundo o estudo “Semi-Árido: proposta de convivência com a seca”, de autoria de João Suassuna, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (órgão vinculado ao Ministério da Educação), no cristalino os solos geralmente são rasos (com cerca de 0,60 m), apresentam baixa capacidade de infiltração, alto escorrimento superficial e reduzida drenagem natural. Uma das conseqüências disso é que, nas chuvas, a água lixívia grande área de solo, antes de entrar nos reservatórios. E com isso acaba recolhendo grande quantidade de sais minerais, tornando-se salobra.

Nas bacias sedimentares, presentes em apenas algumas áreas do Ceará, como a chapada do Araripe, os solos geralmente são profundos, com alta capacidade de infiltração, baixo escorrimento superficial e boa drenagem natural. Estas características possibilitam a existência de um grande suprimento de água de boa qualidade no lençol freático que, pela sua profundidade, está totalmente protegido da evaporação.

Em termos volumétricos, estima-se, no embasamento cristalino, um potencial de apenas 80 km³ de água por ano, enquanto nas regiões sedimentares esse volume pode chegar a valores bem mais significativos. Segundo o estudo, há regiões sedimentares que podem chegar a 17.500 km³ por ano. Essa diferença mostra a importância do bom aproveitamento dos poucos recursos hídricos disponíveis no Ceará e em outros estados onde o cristalino representa boa parte do território.